segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

RYAN GRACIE CULPADO OU INOCENTE?

Por: Ronaldo Laranjeira
Robson Gracie, o pai de Ryan Gracie, tem razão. Há coisas que costumam acontecer só no Brasil. Um rapaz fortão, notório criador de caso, armado com uma faca, rouba um carro, bate o veículo, tenta roubar uma moto, arruma briga, é imobilizado por 30 pessoas e acaba preso. Muito bem. Qual é a obrigação da polícia? Segundo a família Gracie, é encaminhá-lo para um hospital. Não é, não. Nem que ele fosse campeão mundial de Moral e Civismo e famoso por distribuir rosas em vez de sopapos.
Ryan morreu na cadeia, e agora será preciso saber por quê. A família acusa o médico que o atendeu por causa de medicamentos que lhe foram ministrados e diz que a Polícia foi negligente.
O tratamento que os familiares lhe dispensam na morte talvez explique o seu comportamento em vida — não me refiro a sua atividade no ringue. Aquilo, parece, é um trabalho. Por mais estranho que pareça. Refiro-me a seu comportamento no dia-a-dia: ele gostava de brigar. Vi uma entrevista do pai do lutador logo depois da prisão. Disse, então, a coisa certa: se ele errou, tinha de pagar. Com o filho morto, compreende-se a sua revolta. Mas há um limite nas coisas. Antes, farei uma pequena digressão.
Síndrome do pânico
Quero desfazer um mal-entendido estúpido. Atribui-se parte do comportamento violento do rapaz à síndrome do pânico. É uma besteira gigantesca. Disso eu entendo porque tive a doença. Em crise, é impossível roubar um pirulito de uma criança. Há uma pressão quase insuportável no peito, acompanhada de uma sensação de estrangulamento. O coração dispara — os batimentos cardíacos podem chegar a 180 por minuto. Falta o ar. A gente respira muito e com dificuldade, o que leva à hiperventilação, que piora o quadro. Sua-se frio, pouco importa a temperatura. Há formigamento nos braços. A sensação é de morte iminente. Para usar o clichê, é o tipo de coisa que não se deseja nem a um inimigo — vá lá, ao inimigo nº 1 talvez...Raramente o ataque acontece em casa. Eu, por exemplo, nunca tive. Há uma estranha relação entre ambientes abertos, amplos demais ou cheios de gente, e os ataques — é a “agorafobia”. Não há aviso prévio. Pode acontecer a qualquer momento. Síndrome do Pânico não tem nada a ver com medos específicos, com fobias: de avião, de barata ou de cachorro. Aliás, é o traço mais perverso da doença: sabe-se que está ligada a um desequilíbrio de determinados neurotransmissores, mas não se conhecem a sua etiologia e fatores condicionantes. Tenho medo de avião — muito medo. Mas jamais temi ter um ataque de pânico numa aeronave. Tinha a certeza de que ele não viria. Eu estava em prontidão. Com o tempo, a pessoa se torna reclusa justamente porque cansa de ser surpreendida pelas crises. Acaba-se concluindo que o melhor é ficar em casa. As terapias comportamentais ajudam. Mas só os antidepressivos resolvem. A crise dura uns 20 minutos — vinte minutos do mais absoluto terror. Depois passa. E se fica imprestável o resto do dia.Há poucas certezas sobre o pânico. Uma delas é esta: a maconha predispõe o consumidor a ter crises. No meu caso, quando se fechou o diagnóstico — e isso em 1986 —, a primeira pergunta que o médico me fez foi esta: “Fuma maconha, ainda que esporadicamente?” Não. Pacientes que consomem a droga e têm a doença acabam abandonando o capim. O que sustento é que a crise que levou Ryan a ser preso nada teve a ver com a síndrome. Aqueles sintomas, convenham, estão mais ligados à overdose de drogas. Não existe crise de pânico que dure horas a fio. Fim da digressão.
Ao caso
Quem chamou o médico Sabino Ferreira de Farias Neto foi a família, não a polícia. Até onde sei, não há nada que o impeça. O Condepe (Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana) questionou o procedimento. Faria o mesmo se as autoridades tivessem proibido o exame. Como há uma possibilidade razoável de que Ryan tenha morrido em razão de overdose, a proibição estaria sendo agora criticada.Flávia Gracie, irmã de Ryan, disse ter chamado o médico às pressas para que ele atestasse a dependência química do lutador com o propósito de que ele fosse imediatamente internado. Foi feita a solicitação? Se fosse, haveria a necessidade de uma ordem judicial. O que me parece é que a família se mobilizou depressa para caracterizar uma penca de fatores atenuantes, que contassem em favor de Ryan posteriormente. "No dia seguinte, ao saber da morte, ele [o médico] me pediu desculpas. É um safado, um vendido", diz Flávia.
Ainda segundo a irmã do lutador, Farias Neto passou em sua casa, na madrugada de sábado, para cobrar a consulta e pedir que enviasse R$ 100 para o carcereiro para que o lutador fosse bem tratado na cadeia. "Paguei na mesma hora. Ele disse que as coisas funcionam assim mesmo nessa delegacia (91.º Distrito Policial ). E sugeriu que eu mandasse R$ 2.500 para cada delegado." Em depoimento, o médico negou que algum policial lhe tenha pedido propina. Disse apenas ter tratado da questão com Flávia como hipótese. Mesmo assim, a corregedoria investiga o caso.
Todo mundo merece tratamento justo e digno segundo a sua condição.
É compreensível a revolta da família Gracie. Mas também fica evidente a tentativa de inverter os sinais da equação. Quem estava transgredindo as regras era Ryan. As acusações feitas à polícia terão de ser, é claro, apuradas. Mas desconfio um tanto que delegados dissessem a um médico o seu “preço”. Ou que tenha havido uma conversa com o “carcereiro”.“Lamento mais uma vez esse país. Um pseudomédico, um canalha, matou meu filho. As coisas precisam mudar. Dá vontade de entrar no vaso e dar descarga. Nós vencemos o mundo inteiro. Em qualquer lugar, somos valorizados aqui somos os escárnios". É Robson, o pai, falando.
Sua dor explica, mas não justifica o equívoco. Ele ainda não sabe se foram os remédios que mataram o rapaz. Ademais, o que ele queria? Um tratamento de herói para quem acabara de roubar um carro, de ferir um homem e de tentar roubar uma moto? Nem o médico nem a polícia levaram Ryan a consumir drogas. Foi uma escolha pessoal. E, até onde acompanho, seguiu-se a lei, e todos atuaram para proteger o preso. Nada se fez à sua revelia ou de seus familiares.
O país não tem nada a ver com isso, sr. Robson. Ryan fez suas próprias escolhas, como fazem todos aqueles que consomem drogas. A culpa, meu senhor, eu lhe asseguro, não é nossa. Em primeiro lugar, é, sim, de quem consome. É justo que se investigue a atitude do médico. Mas convém que cada um arque com o peso de suas opções.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

OS EUA, BEM COMO A ONU, NÃO SE PREOCUPARAM COM OS ACONTECIMENTOS EM RUANDA?




Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - África

O genocídio praticado em Ruanda é o evento mais trágico da segunda metade do século passado; todavia, dez anos depois, ele está quase totalmente esquecido. A hecatombe de 1994 deve ser lembrada, estudada, analisada, discutida, porque contém um grande número de lições que nos ajudam a entender melhor nosso tempo. Os massacres de 1994 não são frutos de uma explosão de loucura coletiva, mas a máxima expressão de um ódio muito antigo.

A Ruanda pré-colonial certamente não era um país onde todos gozassem de suficiente dignidade e oportunidade; havia divisões sociais, tribais; as monarquias distribuíam privilégios e riqueza de maneira articulada. Mas os colonizadores – inicialmente alemães e, depois, belgas – tiveram grande responsabilidade na exasperada divisão do país entre dois grupos rivais, os hutus e os tutsis. Em 1932, quando os belgas criaram o documento de identidade étnica, chegou-se a uma situação sem retorno: os twás, além dos hutus e os tutsis, viram-se oficialmente divididos.

Os colonizadores atribuíram privilégios e cargos de comando apenas a uma restrita elite dos tutsis, despertando o ódio crescente nos hutus. Depois de deixar o país, os colonizadores assistiram à tomada do poder pela maioria hutu, até então oprimida, sem a preocupação de refrear as tensões causadas por sua política criminosa.

Durante os anos setenta, quando Juvenal Habyarimana chegou ao poder, um grande número de países ocidentais concedeu ao país enorme crédito político, mas principalmente econômico. O auxílio externo equivalia a 22% do Produto Interno Bruto, com rasgados elogios do Banco Mundial, apesar de Habyarimana reprimir de modo sistemático e duro os dissidentes.

Antecedentes da guerra civil

O envolvimento de potências estrangeiras, e sua conseqüente responsabilidade, foram crescendo cada vez mais. A aceleração na direção do genocídio agravou-se em 1990. A Frente Patriótica Ruandesa, formação político-militar dos tutsis egressos do país após o fim do colonialismo, atravessou a fronteira da Uganda e iniciou a guerra civil. A França se alinhou ao governo de Habyarimana mas, para alimentar o conflito, chegaram também armas egípcias, britânicas, italianas, sul-africanas, israelenses, do Zaire e de outros países.
Ruanda, pequeno país, famoso por sua miséria, tornou-se o terceiro país africano na importação de armas. Entre janeiro de 1993 e março de 1994, graças sobretudo a financiamentos franceses, adquiriu da China 581.000 machetes (sabre de artilheiro, com dois gumes), armas impróprias, mas de preço acessível. Nenhuma potência ocidental ou organismo internacional monitorou seu comércio, nem impôs proibições; assim é que, nos mercados de Ruanda, é mais fácil encontrar granadas do que frutas ou verduras.

Acordos de papel

A ONU, a OUA (Organização para a Unidade Africana) e alguns governos resolveram sentar-se com Habyarimana e a Frente Patriótica para discutir um documento elaborado em Arusha, na Tanzânia. Os representantes de cada parte assinaram um articulado Tratado de Paz, que permaneceu apenas no papel. Por outro lado, nenhuma das organizações envolvidas, nem mesmo a diplomacia dos países ocidentais, preocupou-se em verificar o que estava acontecendo de fato. E os dois contendores continuaram a se armar até os dentes.
Em Ruanda, a violência contra os tutsis foi aumentando semana a semana. Algumas partes do Tratado são de fato contraproducentes e nada fazem, senão incitar mais ainda os extremismos. Controlada pelo clã Akazu, ligado à mulher de Habyarimana, a imprensa hostilizou duramente os acordos e gerou um veículo que se tornou tragicamente famoso pelo seu incitamento ao ódio durante o genocídio: a Rádio Mil Colinas. Não obstante este crescimento, a missão dos capacetes azuis (da ONU), enviada a Ruanda para ajudar na implementação dos acordos, foi particularmente frágil.

Sinais ignorados

O general Romeu Dallaire comandava as tropas da ONU. O objetivo era manter a paz, mas, no “país das mil colinas” não havia paz. No dia anterior à sua chegada em Ruanda, o domínio militar tutsi ameaçou o primeiro presidente democraticamente eleito na história do vizinho Burundi, o hutu Ndadaye. Houve confrontos e cinqüenta mil pessoas, na maioria hutu, perderam a vida. Outros fugiram para a Ruanda meridional. Não era o primeiro massacre de hutus causado pelos tutsis do Burundi, e nem o pior, pois, em 1972 foram massacrados pelo menos 200.000, seguido de um presumido golpe de Estado.

A violência, provocada pelos militares tutsis do Burundi, alimentou cada vez mais o ódio dos hutus contra os tutsis de Ruanda. Dallaire entendeu logo o que estava acontecendo: havia urgente necessidade de uma força multinacional, preparada para refazer a ordem, interromper a chegada de armas, garantir a segurança dos civis e dos líderes políticos. Desde dezembro de 1993 até abril de 1994, Dallaire implorou-a outras vezes a seus líderes, à ONU e a quem encontrasse. Não foi ouvido.

Em 6 de abril de 1994, o presidente Habyarimana foi morto, não se sabe por quem. A guarda presidencial, parte do exército e um número enorme de esquadrões da morte, perseguiram os tutsis, conforme um plano bem elaborado. As vítimas do extermínio, segundo estimativas cautelosas, foram quinhentas mil; segundo os maiores críticos, um milhão. Dallaire reuniu outros cinqüenta mil homens, convencido que seriam suficientes para acabar com os massacres.

Mas, na manhã do dia 7 de abril, dez capacetes azuis sob seu comando foram mortos e o Conselho de Segurança (da ONU) decidiu pelo retorno da maioria dos soldados da missão. Dallaire manteve quatrocentos capacetes azuis, quase todos da Tunísia e de Gana. Eles salvaram 25.000 pessoas, mas o genocídio acabou somente quando a Frente Patriótica venceu a guerra civil.

Os soldados tutsis da Frente, bem preparados e disciplinados, não economizaram represálias, ataques a órgãos civis, como hospitais e igrejas. Sua operação não tinha as intenções genocidas dos extremistas hutus, mas os crimes de guerra, pelos quais foram responsáveis, precisam ser duramente condenados.

A retirada

As potências ocidentais, ao abandonarem Ruanda a si mesma, não se cansam de justificar seu comportamento. As mensagens de Dallaire à ONU, levadas ao futuro secretário Kofi Annan, não citaram seus próprios erros, mas afirmavam ter feito todo o possível. O presidente dos Estados Unidos na época, Bill Clinton, que exigira uma intervenção internacional para evitar os massacres, desculpou-se afirmando que não sabia o que se sucedia em Ruanda.

A Bélgica pediu perdão, mas responsabilizou os próprios Capacetes Azuis por tudo. Também acusou o Vaticano e os líderes de outras religiões.

É verdade que muitos líderes da hierarquia religiosa, tanto católica, como anglicana, estavam comprometidos com o regime extremista dos hutus. Porém, naqueles meses, foram mortos 103 padres, 76 freiras e 53 irmãos consagrados.

Os únicos que não pediram desculpas foram o governo e o parlamento francês, que também haviam sustentado os extremistas hutus, até depois da morte de Habyarimana. Comentando uma pesquisa elaborada em 1998, o parlamento de Paris admite algumas falhas, mas insiste que “ninguém fez tanto quanto a França para estancar a violência em Ruanda”.

A atuação da ONU

Sobre as mil colinas de Ruanda morreu a esperança que, com o fim da bipolaridade EUA/URSS, a ONU poderia mostrar ao mundo um futuro de paz. Nos primeiros anos da década de 90, as Nações Unidas se empenharam em dezenas de campanhas pela paz. Foi a melhor demonstração da capacidade do Palácio de Vidro de ser incisivo e eficaz para prevenir situações de crise. Mas não em Ruanda, onde todo otimismo foi sepultado sob montanhas de cadáveres.
Faliram os órgãos responsáveis pelas campanhas, o secretariado geral, o Conselho de Segurança. A Assembléia Geral e a Comissão dos Direitos Humanos nada fizeram. A ONU foi um organismo inútil. A ONU tinha os meios para compreender o que acontecia e sabia como interferir. Poderia prevenir os massacres, se tivesse ouvido os pressentimentos de Dallaire. Poderia interromper ou, ao menos, limitar a violência entre abril e julho de 94, se tivesse enviado reforços que o general pedia com tanta insistência.

Poderia afrontar com eficácia as questões dos refugiados antes que acontecesse “a guerra mundial africana”, se interviesse a tempo, e se utilizasse melhor os recursos econômicos da Instituição para os casos de emergência. O fracasso da ONU em Ruanda foi culpa da irresponsabilidade pessoal de funcionários e de dirigentes. Será inútil pedir sua reforma, sem discutir – abertamente e com transparência –, os comportamentos do seu pessoal.

O genocídio ruandês é um dos piores eventos na história da humanidade. Entre os responsáveis, alguns começam a pagar pelos seus atos. Mas, entre os que podiam interferir para bloqueá-lo e não o fizeram, ninguém se preocupa. Hoje está difícil conseguir a estabilidade em Ruanda. O país está nas mãos firmes de Paul Kagame, desde as vitoriosas eleições do último verão. Ele é o general tutsi que, em 1994, levou a Frente Patriótica à vitória sobre a guerra civil.
Seu governo obteve importantes resultados econômicos e sociais, mas responde por graves violações de direitos humanos, de limitações à liberdade individual. Está ainda envolvido, não tanto como no passado, na guerra que levou à morte outros três milhões de pessoas na República Democrática do Congo. A situação da justiça e as condições de vida nas prisões do país são gravíssimas.

Paz, desenvolvimento, direitos humanos

Há quase dez anos de distância, Romeo Dallaire finalmente contou sua versão a respeito dos fatos, em um livro publicado em outubro de 2003 (Shake Hands With the Devil, Random House, 500 págs). Na conclusão de sua obra, o autor afirma ter repensado sobre o ódio que devastou Ruanda; sobre os milicianos que guerrearam no Congo e sobre a violência terrorista, que é a base dos ataques suicidas, tanto em Manhattan como em Israel.
Segundo o general, este ódio deve ser erradicado e isso só pode acontecer de um único modo: trabalhando contra a pobreza, na defesa dos direitos humanos, fazendo com que – para usar suas palavras – como o século 20 foi o século dos genocídios, seja o século 21 o século da humanidade.
Fonte: Revista “África”